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11/16/2020

Manual de Libras para o Ensino de Ciências

Foi com muita alegria que eu fiquei sabendo do lançamento do Manual de Libras para Ciências: A Célula e o Corpo Humano, um e-book organizado por docentes e por alunos formados do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), professores e intérpretes da Língua Brasileira de Sinais e graduandos do curso de Letras-Libras da Universidade Federal do Piauí. 

O manual constitui a primeira ferramenta com temática de célula e corpo humano específico para a população surda, feito com o apoio de alunos com deficiência auditiva. Nele, 300 novos sinais que ajudarão professores, intérpretes e alunos, não só da Educação Básica, mas também de Ensino Superior, de diversos cursos relacionados à área da saúde.

A ideia é simples e genial. Imagine você, aprendendo Ciências na escola. E, imagine que o(a) professor(a) vai te ensinar sobre cê-e-éle-u-éle-a. E você está super empolgado porque acha mega fascinante como as o-érre-gê-a-ene-e-éle-a-ésse se relacionam, cada qual com sua função específica, fazendo das cê-e-éle-u-éle-a-ésse as unidades básicas da vida. Aí, a primeira aula vai explicar sobre respiração e sobre o papel das eme-i-tê-ô-cê-o-ene-de-érre-i-a-esse no sistema. É tudo tão lindo e, puxa, já é difícil o suficiente entender toda a dinâmica, não precisa ser mais difícil por conta da comunicação, não é? Pois era difícil sim, até que esse manual foi elaborado e os sinais foram criados, evitando a comunicação via datilologia (quando é preciso soletrar com as mãos). Comunicação, gente... é tudo. E pode significar o sucesso ou a desistência de um aluno, mesmo super dedicado, de um curso, seja ele qual for.

Alfabeto manual ou datilologia.

A Revista Pesquisa FAPESP, publicou no dia 11 de novembro de 2020 uma excelente matéria sobre o manual de libras e como ele vai ajudar cerca de 5% da população brasileira a se comunicar e a comunicar sobre biologia celular e corpo humano. As palavras e os termos escolhidos pelos docentes, intérpretes, biólogos e estudantes do Piauí devem ajudar alunos da Educação Básica (o corpo humano, segundo a BNCC - Base Nacional Comum Curricular, é parte do currículo de alunos desde o 5. ano do Ensino Fundamental) e também alunos da Educação Superior.

Tabela parcial das Unidades Temáticas, Objetos de Conhecimento e Habilidades previstas pela BNCC a serem desenvolvidas com os alunos do 5. ano do Ensino Fundamental.

Segundo a matéria da Revista FAPESP, escrita por Victor Bianchin, o manual já está ajudando outras pesquisas na área, como a desenvolvida pela Professora Dra. Nilza Nascimento Guimarães, da Universidade Federal de Goiás que já havia publicado sobre a dificuldade do ensino e aprendizagem de anatomia em cursos de graduação por alunos surdos por falta de sinais específicos para estruturas anatômicas. A matéria da Revista FAPESP vale muito a leitura e está neste link:

BIANCHIN, Victor. Manual de libras para ciências inova no ensino científico para surdos. Revista Pesquisa FAPESP. nov. 2020. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/manual-de-libras-para-ciencias-inova-no-ensino-cientifico-para-surdos/. Acesso em: 15 nov. 2020.

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Para saber mais:

ILES, Bruno; OLIVEIRA, Taine M. de; SANTOS, Rosemary M. dos e LEMOS, Jesus R. Manual de libras para ciências: a célula e o corpo humano. Teresina: EDUFPI, 2019. 80 p. Disponível em: https://www.ufpi.br/arquivos_download/arquivos/EBOOK_-_MANUAL_DE_LIBRAS_PARA_CIENCIA-_A_C%C3%ABLULA_E_O_CORPO_HUMANO20200727155142.pdf. Acesso em: 15 nov. 2020.

Instituto Federal de Goiás. Ministério da Educação. Alunos de Pedagogia Bilíngue atuam na validação de sinais em projeto de códigos e terminologia médica. Acesso em: 15 nov. 2020.

Universidade Federal do Piauí. Ministério da Educação. Docentes e egressos da IFDPar juntamente com intérpretes de Libras lançam Manual para Ciências inédito no país. jul. 2020. Acesso em: 15 nov. 2020.

10/30/2020

Resenha: Pandemias - A humanidade em risco

Mais uma vez me apropriei dos recebidinhos de Carlos Hotta e li Pandemias: A humanidade em risco, do médico infectologista Stefan Cunha Ujvari, publicado pela Editora Contexto.

Pandemias: a humanidade em risco, de Stefan Cunha Ujvari, pode ser adquirido no site da Editora Contexto. R$ 39,90 + frete.

Além de ser um incrível contador de histórias, Stefan consegue fazer o que poucas pessoas conseguem: ler seu contexto atual a partir de conhecimentos de muitas áreas, como História, Geografia, Ciências Sociais, Medicina e Biologia. Alguns capítulos começam com contextos históricos que pra mim eram inimagináveis. Quer ver um exemplo? Você sabia que, em 1944, os japoneses tentaram fazer ataques no território americano com bombas incendiárias que partiam do solo japonês, em balões de gás hidrogênio, se aproveitando de uma corrente de ar que sabidamente atravessa o Japão e vai em direção à costa oeste dos EUA? Eles esperavam que os balões percorressem cerca de 8.000 quilômetros em aproximadamente 3 dias e que, ao chegar nos EUA, provocassem incêndios florestais. Como sabiam dos riscos, os japoneses fizeram 9.000 ataques desse tipo. NOVE MIL. Com isso, provocaram raríssimos incêndios e a morte de seis civis, uma mulher e cinco crianças que se interessaram por um dos balões que estava preso em uma árvore.

As histórias presentes nesse livro são fantásticas. Sério. Para mim ele é uma das evidências de que os seres humanos podem ser muito mais do que eles têm sido. É o tipo de certeza que eu tenho quando vejo uma sonda sendo pousada num meteoro a mais de 300 milhões de quilômetros de distância ou quando vejo aqueles templos fabulosos no Camboja. Cada página desse livro deixa clara nossa capacidade de prever - e portanto, de evitar - epidemias. Considere que esse livro está em sua segunda reimpressão agora em 2020, mas ele foi lançado em 2011. Em 2011 já sabíamos que, em 2003, um vírus SARS provavelmente saído dos civetas vendidos nos mercados urbanos ou nos restaurantes de Guangdong, na China, teria conseguido a modificação necessária para contaminar seres humanos (qualquer semelhança não é mera coincidência). Lá em 2003 também tivemos autoridades negando os casos, também tivemos alertas da OMS (o que, neste caso de 2003, conseguiu parar o vírus antes que ele, de fato, virasse uma pandemia).

O livro também conta a história da H1N1, em 2009, as práticas de usar máscaras, lavar as mãos e passar álcool em gel já estavam todas lá. O vírus H1N1 é um influenzavirus e foi o responsável pela primeira epidemia do século. Lá em 2011, quando estava contado essa história, Stefan já diz "... e outras com certeza virão." (E cá estamos em 2020 esperando uma vacina para fazer um churrasco e abraçar loucamente os amigos.)

Sem querer contar muito, mas já contando mais um pouco, o capítulo que certamente me impressionou mais foi o dos antibióticos, das superbactérias resistentes e da corrida atrás do nosso próprio rabo que fazemos para descobrir antibióticos novos. Eu nunca tinha sequer parado para pensar que os antibióticos que temos, com exceção de um, são feitos a partir do que a natureza fez primeiro. Eles são "cópias" da natureza e não "invenções" nossas. A gente extrai e, por vezes modifica, antibióticos produzidos por fungos e mesmo outras bactérias. Só uma coisa me vem à cabeça agora: TOMEM SEUS ANTIBIÓTICOS DIREITO, RESPEITEM A PRESCRIÇÃO MÉDICA, POR FAVOR, NÃO AJUDEM A SELECIONAR BACTÉRIAS RESISTENTES. (sim, em letras maiúsculas).

Cada capítulo, ou melhor, cada história desse livro é independente e nos mostra nossa fragilidade e nossa força frente aos microrganismos. Depois dele, dá pra ficar dias, meses, anos, imaginando que nossa evolução, nossa história, não pode ser entendida sem o conhecimento da nossa interação com vírus e bactéria.

Recomendo demais, cuidado se você se impressionar muito, não é a ideia que ninguém vire a Chapeuzinho Amarelo.

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Pandemias: a humanidade em risco, de Stefan Cunha Ujvari (2011) 210 p. foi uma cortesia da Editora Contexto para @carloshotta.


8/02/2020

Resenha - Ciência no Cotidiano: viva a razão abaixo a ignorância

Foi com agradável surpresa que, esta semana, recebemos em casa três livros como cortesia da Editora Contexto. Os livros não eram para mim, mas eu não pude conter minha curiosidade. Comecei lendo Ciência no Cotidiano: Viva a razão. Abaixo a ignorância, do casal Natalia Pasternak e Carlos Orsi, conhecidos céticos divulgadores de ciência. 

Capas dos livros da Coleção Cotidiano, da Editora Contexto. No site da editora, no dia de hoje, 02 de agosto de 2020, há desconto para a compra dos seis livros.

Com uma capa bastante bonita, como todas as capas da Coleção Cotidiano, o livro impresso quer inovar na diagramação - não sei se essa é uma característica da coleção ou apenas deste título. As páginas apresentam uma grande variação de recuos, as colunas de texto ora apresentam formato de ampulheta, ora de triângulo, ora a coluna está na diagonal da página. Algumas vezes, essa ousadia na diagramação fica desconfortável, causando quebras sucessivas no texto por conta da pouca largura da linha. Não existe uma justificativa explícita para essa escolha editorial que, muitas vezes, pode passar a impressão de ser apenas um recurso para aumentar o número de páginas do livro. No livro digital, a diagramação não varia.

Todas as páginas, com exceção da Introdução, têm algum tipo de diagramação como essa. Na página 92, por exemplo, o texto em forma de triângulo me causa muito desconforto.

A quarta capa apresenta ao leitor a  pretensão da publicação: mostrar que todos, mesmo sem perceber, nos beneficiamos de Ciência e dos conhecimentos produzidos por meio da Ciência e, ignorar esse fato, torna as pessoas "presas fáceis de curandeiros e charlatões, gente que mente para os outros e, não raro, para si mesma."
Para evitar, então, que as pessoas sejam "presas fáceis", a estratégia adotada pelos autores foi trazer para o livro muitos exemplos e curiosidades de como a Ciência (o cientista) interpreta observações da natureza ou de como o desenvolvimento científico e tecnológico possibilitou avanços na Medicina (capítulo sobre antibióticos e capítulo sobre vacinas), na Genética (capítulo sobre alimentação), nos Sistemas de Localização (capítulo sobre o céu), entre outros. Os exemplos escolhidos ajudam a ampliar o repertório do leitor e oferecem munição contra os discursos anti-Ciência das tias do zap ou dos tios do pavê. 
É bom ressaltar que o texto é básico, ou seja, dificilmente tornará o leitor capaz de discutir com um negacionista cheio de argumentos e, possivelmente, não ajudará as pessoas se tornarem "presas difíceis". Para isso, seriam necessárias discussões mais profundas sobre o fazer científico ou possibilitar alguma forma de letramento científico (exceção talvez possa ser aberta aos capítulos de probabilidade e estatística, que apresentam alguns recursos de forma bastante básica, mas ainda assim importantes para iniciantes e, sem dúvidas, relevantes para as discussões atuais sobre casos e mortes causadas pelo coronavírus - o leitor deve ser informado, entretanto, que o livro foi escrito antes da pandemia e, obviamente, não faz menção a ela). 
Admito que, quando eu peguei o livro para ler, esperava outra proposta, um pouco mais parecida com essa daqui, discutida pela própria autora para o canal do YouTube da Casa do Saber:



Talvez pela necessidade de simplificar a linguagem, alguns trechos podem causar a impressão de que exista um certo utilitarismo na Ciência, ou que o método aplicado em Ciências (inclusive Ciências Humanas) não possa ser aplicado em contextos diferentes dos estudos da Natureza. 
O livro começa a ficar mais interessante do ponto de vista de construção de pensamento a partir do capítulo 3. A introdução e os dois primeiros capítulos parecem um pouco sem foco, principalmente o capítulo sobre bactérias. Há alguns momentos em que o texto faz uma enorme força para não desagradar ninguém, o que pode desagradar todo mundo, como quando fala sobre cesáreas, amamentação, protetor solar, sabonetes ou mesmo quando flerta com o veganismo ou no trecho sobre agricultura (orgânica e convencional) e pesticidas.
Em alguns raros momentos, o texto simples pode dar a falsa ideia de que absolutamente nada seria possível sem a Ciência, como construir uma cadeira, fazer uma plantação agrícola ou maturar um queijo, coisas que sabemos ser bastante anteriores ao que reconhecemos hoje como Ciência ou como conhecimento científico, e muitas delas foram possíveis antes mesmo de conhecimentos matemáticos complexos. Gosto de me lembrar sempre que, muitas das primeiras explicações que os seres humanos deram sobre certos fenômenos naturais foram, tão somente, baseados em pensamento lógico e uma boa dose de empirismo.
O livro certamente ajudará o leitor a impressionar amigos ou aquela pessoa interessante no primeiro encontro. Para uma discussão mais complexa sobre Ciência, sobre a contribuição dos cientistas e para, definitivamente colocar um negacionista em situação desconfortável, será preciso um segundo encontro com os autores. Já estamos aguardando o próximo livro!

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Ciência no Cotidiano: Viva a razão. Abaixo a ignorância, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi (2020) 160 p. foi uma cortesia da Editora Contexto para @carloshotta.